Método

O que se olha quando se analisa um contrato.

A análise não começa pela conclusão. Começa pelos documentos, e percorre uma sequência fixa — porque é a ausência de um desses elos que faz um pedido legítimo ser indeferido por falta de prova.

Operários montando armadura de laje em obra de edifício, com grua e prédios ao fundo
Frente de obra · São Paulo Fig. 01

As doze fases da análise

F.01

Instrumento contratual e anexos

Leitura integral do contrato, do edital, do termo de referência e de todos os anexos. É onde estão as regras do jogo que a maioria das partes só vai ler quando o problema já aconteceu.

  • Regime de execução e forma de pagamento
  • Cláusulas de alteração, reajuste e reequilíbrio
  • Prazos, marcos e condições de recebimento
  • Matriz de riscos, quando existente
  • Regime legal aplicável: Lei 8.666/93 ou Lei 14.133/2021
F.02

Planilha orçamentária e composições

O orçamento contratado é a referência de tudo. Aqui se verifica se os preços unitários correspondem aos serviços que estão sendo efetivamente executados e se as composições refletem o método construtivo real.

  • Composições de custo unitário item a item
  • Referência de preço adotada e data-base
  • Itens sem composição própria ou com composição genérica
  • Divergência entre projeto e planilha
F.03

BDI e encargos

Composição do BDI e sua adequação ao objeto: administração central, risco, seguro e garantia, despesas financeiras, tributos e lucro. Um BDI mal construído contamina cada item da planilha.

  • Parcelas do BDI e coerência com o tipo de obra
  • Tributação efetiva do contratado
  • BDI diferenciado para fornecimento de equipamento
  • Encargos sociais e regime de mão de obra
F.04

Cronograma contratado versus execução real

Comparação entre o cronograma físico-financeiro do contrato e o que efetivamente ocorreu, mês a mês. É essa diferença que sustenta pedido de prazo e demonstra o desequilíbrio de curva.

  • Curva prevista contra curva realizada
  • Caminho crítico e atividades impactadas
  • Paralisações, suas causas e responsabilidade
  • Efeito do atraso sobre custo indireto e mobilização
F.05

Medições realizadas

Revisão do histórico de boletins: o que foi medido, o que foi glosado, o que foi executado e nunca entrou em medição. Serviço executado e não medido é caixa que a empresa já gastou e não recebeu.

  • Boletins mês a mês e glosas aplicadas
  • Serviços executados sem correspondência em medição
  • Quantitativo medido contra quantitativo contratado
  • Retenções e sua base contratual
F.06

Reajuste e data-base

Verificação do índice contratado, da data-base correta, da periodicidade e da base de incidência. Reajuste não requerido no tempo próprio é dinheiro que se perde sem discussão.

  • Índice previsto e índice efetivamente aplicado
  • Data-base do orçamento e da proposta
  • Periodicidade e marcos de aniversário
  • Parcelas sobre as quais o reajuste incide
F.07

Eventos supervenientes

Identificação dos fatos ocorridos durante a execução que alteraram a condição contratada, e classificação de cada um: risco do contratado, risco da Administração ou evento extraordinário.

  • Variação anormal de preço de insumo e de frete
  • Alteração de projeto e de especificação
  • Atraso na liberação de área, projeto ou licença
  • Chuva acima da média histórica, embargo, interferência de terceiro
  • Fato do príncipe e fato da Administração
F.08

Alterações quantitativas e qualitativas

Enquadramento das alterações já ocorridas ou pretendidas, e verificação dos limites legais de acréscimo e supressão sobre o valor inicial atualizado do contrato.

  • Acréscimos e supressões acumulados
  • Limite de 25% — e as hipóteses de exceção
  • Serviços novos e formação de preço não previsto
  • Manutenção do desconto original da proposta
F.09

Documentação probatória

Um pedido tecnicamente correto e sem prova é um pedido indeferido. Esta é a fase que mais frequentemente decide o resultado, e a que as empresas mais negligenciam durante a obra.

  • Diário de obra e registro tempestivo dos fatos
  • Notas fiscais, cotações e comprovação de custo real
  • Correspondência oficial trocada com a fiscalização
  • Fotografias datadas, relatórios e laudos
  • Séries históricas e fontes públicas de índice e preço
F.10

Enquadramento legal

Ancoragem do pedido na norma aplicável e na jurisprudência de controle. O parecerista que vai analisar do outro lado precisa encontrar o fundamento pronto, não deduzi-lo.

  • Lei 8.666/93 ou Lei 14.133/2021, conforme o contrato
  • Cláusulas contratuais específicas invocadas
  • Instruções normativas e orientações do órgão
  • Acórdãos do TCU aplicáveis à hipótese
F.11

Redação do pleito

Montagem da peça: exposição dos fatos, demonstração do nexo causal, memória de cálculo, pedido e documentos. Escrita para ser lida por engenheiro e por jurista — porque os dois vão analisar.

  • Relatório técnico com memória de cálculo auditável
  • Nexo entre evento, custo e item contratual
  • Pedido delimitado e quantificado
  • Índice de anexos e cadeia probatória
F.12

Protocolo, diligências e acompanhamento

O pedido protocolado não se defende sozinho. A fase de diligência é onde a maioria dos pleitos morre, por resposta incompleta ou fora do prazo.

  • Protocolo e acompanhamento de tramitação
  • Resposta técnica a diligências e questionamentos
  • Complementação de prova quando exigida
  • Suporte na negociação do valor final reconhecido
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